Os primeiros passos são tortos e cambaleantes,a caminhada torna-se exaustiva, por muito deixei de praticar o andar, somente era necessário caminhar poucos e curtos passos para cruzar o meu curto, branco,sem janelas e iluminado mundo. Já de cara o que vejo pelo caminho se distancia muito das memórias em minha mente, memórias que gosto de acreditar que são verdadeiras, só foram por muito, esquecidas.
Vejo que o mundo perdeu aquela beleza natural que enchia os olhos, me ensinaram que o planeta terra era um lugar com belas vistas, encantadores sons e adoráveis cheiros. Nenhuma das fotos representa o que vejo agora. Tudo tornou-se tão moderno, tão complexo,tão moderno, tão bonito... que chega a ser feio.
O ser humanos então, não se parecem nada com as fotos, eu via grandes e verdadeiros sorrisos, eu enxergava o sentimento deles, eu quase sentia o mesmo, eu podia até entender a sensação. Mas agora, não sinto nada ao olhar nos olhos de um desses "seres", não consigo enxergar a alma deles, estão tão presos em seus objetivos que não conseguem nem perceber a beleza da luz do Sol rompendo mais uma vez as trevas e trazendo consigo a alegria, os cantos dos passarinhos e o brilho do orvalho destacando-se nas folhas dos poucos gramados restantes. Tudo se tornou apenas mais um dos elementos de uma grande e entorpecedora rotina. Os sentimentos foram esquecidos,a sensibilidade desprezada, o progresso evidenciado e a preocupação com o próximo deixado de lado. Cansei de enxergar pessoas robóticas, profissionais perfeitos, as máquinas já são assim, procuro erros, gritos, insolências, procuro sinais de vida, vida de verdade.
Fomos ensinados com a ideia errada de progresso,"extirpamos o órgão e exigimos a sua função. Produzimos homens sem peito e esperamos deles virtude e iniciativa. Caçoamos da honra e nos chocamos ao encontrar traidores entre nós. Castramos e ordenamos que os castrados sejam férteis".
Decido voltar imediatamente para minha "casa", pequena, branca,sem janelas e iluminada, não quero viver nesse mundo sem vida. As histórias que ouvi falavam de um lugar ideal para se viver, não foi o que encontrei aqui. No desespero olho para trás, só mais um vislumbre do lugar que não quero morar, e de repente caio no chão. Sento e choro. Por que tudo o que sei sobre a terra e seus habitantes é mentira ?
Uma sombra encobre a luz do sol sobre mim, trazendo consigo um frio arrepiante, quando olho para sua origem, avisto um velho, mas somente na aparência, pois aparentava ter toda a vitalidade que aqueles lá na cidade não tinham. Ele se sentou ao meu lado e me disse que o que eu conheci não era mentira, nem implantes de memória, felizmente, ou infelizmente, o que eu sei, são lembranças, o mundo já foi vivo, o ser humano já teve sentimentos e sensibilidade para com ao mundo, mas sofreram tanto com as desilusões de suas utopias, que se fecharam dentro deles mesmos, estão presos dentro de um pseudo coma, estão vivos, mas mortos para o mundo.
Não quero ser assim, fecho os olhos tentando me lembrar de como o mundo foi em um passado, o velho sumiu ao abrir dos meus olhos. Uma nova dúvida surge, não quero voltar para minha "casa", não consigo morar lá, lá não é um lar, mas a cidade, as pessoas, não são nada atrativas para mim.
Me levanto, enxugo os olhos, dou um passo em frente, é melhor fracassar do que não tentar e não saber qual seria o resultado da experiência.
Eduardo Dinareli
Nenhum comentário:
Postar um comentário