26 de julho de 2012

"Então verei Princípio e Fim"



Quando abri meus olhos pude sentir algo aconchegante, sereno, algo que se aproximava da felicidade, aquela paisagem tão radiante seria capaz de encantar qualquer ser com sentimentos, era tudo tão lindo e apreciativo. Lágrimas preencheram meu rosto, não conseguia entender como poderia haver tanta podridão em um mundo tão bonito, não conseguia entender como poderia existir tanta pobreza de espirito em um mundo tão rico de coisas puras a oferecer.Assim que as lágrimas me abandonaram pude me acalmar, mas não consegui enxergar nada mais além de um clarão cegador de cor branca. Lutava com meus olhos,pois queria só mais um vislumbre daquela paisagem tão linda, e então uma luz preta me dominou e não consegui mais sentir nada.

Já fazem 4.380 dias...
Não tenho nada a não ser um pequeno espaço vazio, com uma forte luz branca. Somos somente eu, o silêncio e a solidão.
- Você estará livre em breve, não existe nada de errado com você - a voz ecoava em minha mente.
- Você não está sozinho, quando precisar estaremos aqui - outra voz ecoava.

Não me lembro do que aconteceu, ou pelo menos não quero lembrar. Acho que não consigo nem falar mais, estou preso somente a meus pensamentos. Essa sensação de que eu mereço tudo isso não me sai do coração, essas imagens, essas pessoas, fazendo coisas terríveis comigo, são eles, ou melhor eram eles, meus amigos. Não faço ideia de onde estou ou quando estou. Não sei o que de fato eles fizeram comigo, eu só quero esquecer.
Não consigo entender nada. Só sei que de alguma maneira fui enclausurado aqui, aquela luz preta me dominando, me paralisando e agora, isso. Sei que não gritei, não esbocei sofrimento, sei que não pedi ajuda, sei que o céu desaba todos os dias, mas sei também que o amanhecer traz a vida e luz necessária para mais um dia de esperança. 
"Sei que o sol despenca todos os dias respigando vermelho, amarelo e laranja no mar. Sei que as folhas se espalham em milhões com tons dourado mergulhando no vendaval até serem esquecidas no chão. Estou esquecido aqui também, nesse vazio, com essas lembranças.

Não há tanta vida como antes , pelo menos é o que as vozes me informam, ou avisam. Elas dizem que o mundo costumada ser mais receptivo, mais puro. A alegria se foi, deu espaço ao progresso, à arrogância, à inveja, à iniquidade,à traição.O mundo que conheço agora é apenas o que me foi dado, a solidão. Um eco das lembranças quase esquecidas.
Pressiono minha mão contra o peito, tentando sentir o coração, e instantaneamente as cicatrizes começam a arder e sangrar, não entendo o que está acontecendo. Me pergunto o porquê de estar preso aqui, sinceramente não esperava nada, mas várias outros ecos rondam agressivamente meus ouvidos...

- Tudo é culpa sua.
- Você não está aqui contra vontade, você mesmo criou essa prisão.
- Aqui é o seu lugar.
- Você não precisa deles.
- Veja, o princípio e o fim se resume ao aqui e ao agora. Esqueça o mundo lá fora.

Tudo começa a ficar confuso, me vejo gritando ao desespero e depois me rendo ao choro... 
Tudo se acalma novamente, mas algo está diferente em minha cela, (se é que posso chamar assim) apesar de muita claridade dominar o ambiente percebo algo diferente, uma nova luz, um tão esperado som, uma brisa acaricia minha nuca e espontaneamente me viro num salto de esperança e vejo o que esperava a tanto tempo mas que agora temo mais que tudo. Estou livre, mas não sei se quero sair, o mundo lá fora é perigoso e sofredor demais pra mim, os seres que nele vivem esqueceram a essência do que é ser criação de Deus. 
Não consigo sair, não quero sair... A vida é feita de escolhas, e eu fiz a minha, mas não me sinto feliz com isso, preciso de ajuda, mas não tem ninguém aqui.
Ser feliz não é viver sem sofrimento, posso enfrentar o sofrimento me iludindo com ideias de que estou melhor assim. Somente eu, eu mesmo e o silêncio.


Eduardo Dinareli

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